sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Guiné-Bissau: Os Direitos Humanos e o caso da morte do Capitão Armando Pombo

José Ramos-Horta, Representante Especial do Secretário-Geral das Nações Unidas                                    

“…Alguém em que a vida é perdida pela violência deixa muita mágoa, muita revolta, ressentimentos e vai alimentando situações muito difíceis. Ora, esta situação é totalmente inaceitável”. 

Bissau (GBissau.com, 26 de Novembro) – Numa entrevista recente com a GBissau.com e a Rádio online Gumbe.com, o Representante Especial das Nações Unidas na Guiné-Bissau falou de uma forma emocionante sobre o caso do capitão Armando Pombo que perdeu a vida depois de frequentar o centro de treinamento militar de Cumeré.
José Ramos-Horta teria ajudado financeiramente para o tratamento e a evacuação do Capitão Armando Pombo, mas este acabou por perder a vida, dentro do avião, no exacto momento em que estava a ser evacuado para um país estrangeiro.
Eis a transcrição da parte da entrevista de Ramos-Horta sobre este e outros casos das violações dos Direitos humanos na Guiné-Bissau:

Capitão Armando Pombo - Foto Exclusiva - GBissau.com
Capitão Armando Pombo – Foto Exclusiva – GBissau.com
Eu, pessoalmente, há duas semanas [este período já ultrapassa duas semanas] atrás, fui visitar um agente da Policia, mais do que 50 anos de idade, gravemente internado numa clínica privada aqui em Bissau. Gravemente internado em situação crítica porque foi forçado — ele era um Policia, não era um militar e mesmo se fosse um militar, ele é de idade — foi forçado a fazer exercícios que são feitos pelos jovens recrutas. E foi espancado.
Foi graças à intervenção da ONU aqui é que a pessoa foi levada de urgência para uma clínica privada. Fui visita-lo e da minha bolsa, do meu dinheiro, paguei a clínica para que ele pudesse lá continuar, porque a clínica rejeitava a continuação do tratamento do referido elemento, sem pagamento. Garanti-lhes o pagamento e paguei da minha bolsa.
Ora, devo dizer, entretanto, fizemos todo o esforço junto às autoridades nacionais para que o senhor fosse evacuado. O avião chegou mais tarde, mas o senhor morreu dentro do avião, antes do avião levantar o voo, deixando para atrás a esposa, deixando os filhos, deixando outros familiares, deixando os seus amigos e os seus vizinhos.
Isto obviamente cria ressentimento entre muita gente. Alguém em que a vida é perdida pela violência deixa muita mágoa, muita revolta, ressentimentos e vai alimentando situações muito difíceis. Ora, esta situação é totalmente inaceitável. Como é possível forçar alguém de 52 anos de idade, Policia, para ter aquele treino? Segundo, ainda por cima ser espancado. Uma vida foi perdida.
Agora, quem é responsável, quem se responsabiliza por aquele acto e tantos outros? Este país, Guiné-Bissau, não pode continuar a ser vítima desses atropelos à integridade física, à dignidade, à santidade da vida. É inaceitável no mundo em que hoje vivemos.
Eu sei que que houve mais três casos. Portanto, há quarto, entre eles, três mortos, devido a esses alegados treinos. Temos a identificação. Não é uma situação normal.
Não se pode dizer que nos outros países também há mortos por treinos. Há obviamente. Há em Portugal, há nos Estados Unidos da América, mas [no caso da Guiné-Bissau] não estamos a falar de jovens que não aguentam treinos para as forças especiais. Quando uma coisa é resultado de um treino violento, de preparação violenta, as pessoas morrem, mas seguem-se investigações a serio. Na Austrália, em Portugal, nos Estados Unidos, na Inglaterra, quando esses casos se verificam, apuram-se as responsabilidades em como um jovem morreu em treino.
Ora, no caso da Guiné-Bissau, este caso foge à qualquer um que tem acontecido pelo mundo. Primeiro, ele é um senhor de idade. Segundo, é um Policia, não um militar e, terceiro, não foi apenas da violência do treino, mas foi do espancamento.
Não sei se este caso tem uma explicação política. Se tem uma explicação política, pior ainda. Independentemente de quais seriam as motivações, é simplesmente inaceitável que se banalize uma vida humana assim. Eu não pactuo com estas situações.
  • Nota do Editor: Através de um comunicado da Liga Guineense dos Direitos Humanos, a GBissau.com esclarece que o caso se trata do Capitão Armando Pombo, um militar que era afecto ao aquartelamento da Engenharia militar. Ele morreu no dia 13 de Novembro 2013, alegadamente em consequência dos espancamentos sofridos no Centro de Instrução Militar de Cumeré, como também sublinha agora o Representante Especial das Nações Unidas na Guiné-Bissau.
http://www.gbissau.com/?p=8297#more-8297

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